Menos Marx, Mais Bastiat

Frédéric Bastiat, exímio jornalista e economista francês que viveu em Roma nos anos de 1801 a 1850, escreveu obras que antecederam a Revolução de 1848 (Primavera dos Povos), nas quais seu caráter liberal é destilado, demonstrando grande afeição pelo Anarcocapitalismo, embora este sequer fosse comentado na época.

Em seus icônicos livros “FREDERIC BASTIAT” e “A LEI”, a repulsa para com o Estado é evidente. Regados de sarcasmo, suas obras são duras críticas à intervenção estatal na economia e vida pessoal do indivíduo, esta primeira com mais intensidade que a segunda.

Enfatiza-se a obra intitulada com seu próprio nome, na qual as objeções ao Estado são demonstradas através de finos e precisos exemplos, seguidas de uma escrita simples, voltada exatamente para o público em geral, sem muitos termos técnicos. Este articulista, particularmente, julga Frédéric Bastiat como uma de suas melhores obras.

Todavia, o que leva este livro a ser enaltecido neste artigo? Seu primeiro capítulo, sem dúvida, o qual é intitulado de “O que se vê e o que não se vê”.

Veja bem, neste capítulo de 54 páginas, Bastiat, nos ensina a nunca confiar em quaisquer coisas somente por aquilo que enxergamos à primeira vista. Transferindo seus ensinamentos para a atualidade, digamos que, o dinheiro recebido pelos beneficiários de certo assistencialismo é o que se vê, enquanto o meio utilizado a fim de angariar o dinheiro necessário para manter o benefício e quem de fato o custeia, é o que não se vê; devendo, portanto, todos se atentarem principalmente a este lado quase que invisível das coisas.

Bastiat utiliza em um dos vários exemplos, a história de um senhor que teve sua janela quebrada e teve de despender determinada quantia de francos para custear o conserto. Note-se que, é tão minuciosa a crítica que se deve fazer a partir deste ensinamento, que Frédéric utiliza de um exemplo simplório e corrente, in verbis:

“Supondo-se que seja necessário gastar seis francos para reparar os danos feitos, pode-se dizer, com toda justeza, e estou de acordo com isso, que o incidente faz chegar seis francos à indústria de vidros, ocasionando o seu desenvolvimento na proporção de seis francos. O vidraceiro virá, fará o seu serviço, ganhará seis francos, esfregará as mãos de contente e abençoará no fundo de seu coração o garotão levado que quebrou a vidraça. É o que se vê

[…]

Não se vê que, se o nosso burguês gastou seis francos numa determinada coisa, não vai poder gastá-los noutra!  Não se vê que, se ele não tivesse nenhuma vidraça para substituir, ele teria trocado, por exemplo, seus sapatos velhos ou posto um livro a mais em sua biblioteca.  Enfim, ele teria aplicado seus seis francos em alguma outra coisa que, agora, não poderá mais comprar.”

Seria isso um “devaneio, um sonho de uma noite de verão”? Talvez. Entretanto, é importante salientar que são por meios de exemplos aparentemente bobos que muitas vezes aprendemos muitas coisas. Que melhores críticas a serem feitas, senão por meio de quadrinhos com traços simples como é o caso de Mafalda? Ou, para ser mais abrangente, os traços humildes utilizados em charges de jornais? Críticas mais eficientes e precisas que qualquer outra mais rebuscada.

Ademais, Frédéric Bastiat é de fato um livro para qualquer pessoa, independentemente de sua ideologia, posto que seu intuito acaba por ser mais sobre o desenvolvimento do pensamento crítico; induz o leitor, após sua finalização, a começar a observar tudo o que vê já pensando naquilo que não se está vendo.

A respeito do roubo legalizado imposto, Bastiat explica que:

“As vantagens que os funcionários encontram ao receberem seus salários é o que se vê. O benefício que resulta disso para os fornecedores em geral é o que ainda não se vê. Isso cega os olhos do corpo.

Mas as desvantagens que os contribuintes experimentam ao terem que pagar é o que não se vê, e os danos que isso acarreta para os fornecedores é o que não se vê mais ainda, embora eles devessem saltar aos olhos da inteligência. 

Quando um servidor público gasta, em benefício próprio, 100 soldos a mais, isso implica em que um contribuinte tenha 100 soldos a menos em seu próprio benefício. Mas a despesa de um servidor público se vê, porque ela se concretiza, enquanto que a do contribuinte não se vê, porque, infelizmente, ele não adquire nada.”

No mundo sempre existirá, em quaisquer tipos de ações e omissões, aquilo que se vê e aquilo que não se vê, sendo o último fatal e deveras importante, que jamais deveria ser cogitada a possibilidade de ser ignorado.

Diante das atitudes do governo é preciso o pensamento crítico de Bastiat, senão cairemos facilmente em seus discursos populistas, estes que em especial é citado, pois em regra o povo opta por apenas continuar naquilo que se vê.

Sobretudo, o economista francês indubitavelmente quis dar maiores detalhes a famosa frase de nossos antepassados, qual seja: “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Conteste tudo, não ceda facilmente a qualquer discurso apresentado por político ou pessoa diversa, há sempre dois lados da moeda e ignorar um não fará o outro deixar de existir.

Fundador do site Mão Invisível, Conselheiro Estadual junto ao Liderança nas Escolas em São Paulo, estudante de Direito e amante de quadrinhos
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