Na Venezuela, o natal parecia filme de terror

Amanhece em Caracas, capital venezuelana. A metrópole ─ famosa no país por ter a tradição de seus moradores andarem de patins rumo às igrejas na manhã de natal ─ acordou triste.

A capital tem um índice de homicídios equivalente a cidades de cenários de guerra, além de saques (quando os mercados estão abastecidos) e confrontos caracterizados como verdadeiras batalhas campais, entre o exército e uma população furiosa por diversos motivos.

A tradição de patinar durante o 25 de Dezembro tornou-se impossível por muitos motivos, mas talvez o principal seja o preço: um par de patins custa em média 400 dólares, tendo em vista que cem bolívares tem um valor de câmbio de 15 centavos de dólar, o par de patins na nação dirigida por Maduro custaria 14 cestas-básicas em Caracas.

Com uma inflação galopante de 3 dígitos (estimativas chegam a 400% ao final deste ano), os venezuelanos sofrem para buscar alguma alegria e conforto durante o feriado mais famoso do planeta. A população passa em média 07 horas em filas gigantes com aparência de serem intermináveis. Podendo comprar certos produtos apenas uma ou duas vezes na semana, a ceia de natal tornou-se mais do que uma tarefa árdua, ela agora é utopia: insumos básicos são racionados em porções irrisórias, mostrando as graves consequências do “socialismo do séc. XXI” de Chávez e Maduro.

Como se já não bastasse todos esses graves problemas socioeconômicos, há ainda o problema principal: a forma de governo e os próprios governantes. Maduro insiste em alegar que existe uma “megaconspiração” internacional contra sua base governante e suas políticas fracassadas. A novidade é de que segundo o discípulo de Chávez, as elites empresariais esconderam e desabasteceram os centros comerciais afim de deixar a população sem recursos durante as festividades de fim de ano, e tudo isso seria para desmoralizar (ainda mais) o governo bolivariano.

O apoio popular do líder venezuelano despencou nos últimos meses, movimentos de oposição explodiram em diversas capitais venezuelanas, protestos e marchas marcaram a luta da população pelo fim do caminho da servidão, lembrando de certa forma os movimentos pró-impeachment de 2013, 2015 e desse ano.

A Venezuela conta hoje com cerca de 100 presos políticos (dado altamente duvidoso, pois foi divulgado pelo governo), os presos considerados “piores” são enviados a uma prisão de segurança máxima apelidada de “La Tumba”, onde ficam encarcerados no subsolo em condições deploráveis alguns líderes de oposição. Essa coerção e repressão estatal mostram à população que infelizmente neste natal foi muito difícil manter o famigerado “espírito natalino”.

Escassez de alimentos básicos, desvalorização monetária em câmbios internacionais, inflação galopante de 3 dígitos, violência aumentando exponencialmente, crescimento do desemprego e coerção violenta do Estado na vizinha Venezuela mostram e ensinam ao mundo exatamente o que não se deve ser feito de maneira alguma: Uma economia fechada e centralizada e um governo autoritário.

O mais triste porém, é ter a ciência dos pedidos das crianças venezuelanas neste natal:

“Pedi ao Papai Noel comida para minha família e uma comunidade limpa”, disse Helen Ramirez, de 8 anos e moradora de Caraquenha de Petare, uma das maiores favelas da América Latina.

Em um total cinismo e egocentrismo, Maduro discursou ao povo:

“Não esperem pelo Papai Noel neste ano, não vai chegar nenhum brinquedo dele. Na Venezuela, quem vem é o menino Jesus, e em todo caso, São Nicolás. Mas sem barba, São Nicolás vem de bigode” disse o governante, falando de si mesmo.


FONTES:

Isto É ─ Até onde vai a crise na Venezuela?

Momondo ─ 11 tradições curiosas e bizarras de Natal pelo mundo

DC ClicrBs ─ Venezuela vive seu “Natal do cem”

O Globo ─ No auge da crise, venezuelanos se preparam para ‘pior Natal da vida’

Estudante universitário de Gestão Pública e Economia, diretor do Blog Mão Invisível e do Distrito Liberal.
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